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AGÊNCIA ALAGOAS

Governo do Estado de Alagoas
Sexta, 06 Julho 2018 10:55
História atemporal

Estudos apoiados pelo Governo de Alagoas rememoram a identidade alagoana

A ordem médica sobre o Alagadiço: Higienismo e epidemias na Alagoas Imperial (1850-1882) é uma das obras beneficiada

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Texto traz conexões de reflexão acerca dos impactos causados em Alagoas pelas epidemias no século XIX, sendo estas a cólera, febre amarela e varíola. Texto traz conexões de reflexão acerca dos impactos causados em Alagoas pelas epidemias no século XIX, sendo estas a cólera, febre amarela e varíola. Imagens cedidas pelo Arquivo Público de Alagoas (APA)
Texto de Tárcila Cabral

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) tem incentivado produções que analisem e popularizem contextualidades históricas. Um exemplo disso foi o apoio concedido à obra A ordem médica sobre o Alagadiço: Higienismo e epidemias na Alagoas Imperial (1850-1882), fruto do mestrado em História de Oseas Batista.

 

Embasado por uma imersão na História Brasileira — disciplina ministrada pelo seu orientador Gian Carlo Silva, o seu interesse de pesquisa surgiu através da leitura de um texto que provocou conexões de reflexão acerca dos impactos causados em Alagoas pelas epidemias no século XIX, sendo estas a cólera, febre amarela e varíola.

 

Oseas ressalta que as questões observadas pelo autor João José Reis na Bahia também eram encontradas no estado, os dilemas das doenças mudam a reforma cemiterial, e as questões médicas alteram os costumes desta sociedade. A partir deste momento, por exemplo, os cadáveres não poderiam mais ser velados em público, pois se existia a crença de que eles causariam algum tipo de doença ou epidemia. Neste ensejo também foram pesquisadas as estratégias adotadas pelas comissões de salubridade pública governamental e provincial da época, e como os indivíduos reagiam a um cenário crítico instaurado.

 

Principais Impactos

Partindo para o cenário do século XIX foram gerados dois impactos principais: o quadro de mortalidade que é possível ser observado numa retrospectiva ligada a fatores sociais, como a alimentação escassa e a falta de medicamentos. E o efeito mais sério representando a mudança na conjuntura alagoana neste século, porque através desta política higienista os médicos alteram costumes tentando reformar e medicalizar esta sociedade.

 

As experiências impactaram não só a época, como despertam transições para o estabelecimento do comportamento das gerações futuras. O nome Higienismo foi atribuído no contexto das práticas do século XIX, que transformaram instruções médicas em procedimentos importantes ainda utilizadas atualmente. A partir desta tendência, por exemplo, não existiriam mais os grandes cortejos de cadáveres, o que era um costume bem arraigado desde o Brasil Colonial.

 

Os novos procedimentos introduzidos também possibilitaram um olhar mais atento à chamada medicina social que surgiu na França no século XVIII, e chegou em Alagoas no século seguinte. Este segmento trouxe consigo mudanças nos hábitos reproduzidos na saúde provincial, o que foi analisado pelo acadêmico através dos documentos do Arquivo Público de Alagoas (APA).

 

“Eu consigo observar sinais e indícios deste tipo de pensamento no século XIX: É uma técnica de mudar um ambiente natural para um ambiente racionalizado e medicalizado”, explica o estudioso.

 

Com a conclusão da pesquisa Oseas, argumentou que o higienismo em Alagoas se inseria num campo de mudanças sociais, e que os indivíduos agiam de acordo com as suas situações e possibilidades tanto na cura destas doenças, quanto nas estratégias de abordagem.

 

“O nosso principal papel do grupo Nescem, Núcleo de Escravidão Sociedade Escravidão e Mestiçagem, é escrever uma história de Alagoas e escrever uma história para o nosso tempo”, completa o historiador falando de seu nicho na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 

Para o mestrando, a Fapeal é uma instituição importante, porque fomentando a pesquisa, ela incentivou diretamente um resgate deste acervo histórico e uma produção, contribuindo para o alagoano compreender melhor sua identidade.

 

Graduação na ciência

Dirigindo reforços específicos às demandas das ciências humanas, a Fapeal lançou em 2016 a chamada de Apoio à Pesquisas nos Programas de Pós-Graduação de Humanidades. Neste edital o pesquisador Gian Carlo Silva foi aprovado com o estudo História da escravidão e da sociedade em Alagoas: conceitos, instituições, dinâmicas sociais, econômicas e culturais, e pôde inserir bolsistas da graduação neste processo, o que foi o caso de Amanda Mafra. Esta temática não apenas a inseriu nas atividades de pesquisa, mas influenciou diretamente na escrita do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

 

Com o título Flores negras: Um estudo sobre escravidão doméstica em Alagoas, a estudante analisou a trajetória histórica das escravas domésticas na segunda metade do século XIX. Neste estudo, Amanda Mafra contou com documentos do APA para vislumbrar facetas do que era o cotidiano das escravas em Alagoas dentro deste recorte temporal. Porém, a construção do texto requereu um aprofundamento mais cuidadoso, por ser um tema que remetia a aspectos muito particulares e de privacidade do contexto social da época, o desafio era analisar o que não foi dito: “Eu, em minha pesquisa, dois séculos depois dos acontecimentos, busquei entender o que se passava ali naquele contexto, pois era complexo. No entanto, através das leituras de diversos documentos oficiais, eu consegui construir uma análise do discurso das entrelinhas do que não era dito abertamente”, explica a estudante.

 

Ela utilizou como base para sua pesquisa os anúncios de jornais, principalmente, uma carta de alforria e um interrogatório de polícia de uma escrava fugida. Os anúncios abordavam a compra, venda ou fuga de escravas para o trabalho doméstico, e examinando-os, Amanda compreendia o que se buscava num modelo de escrava para o serviço da casa. Era possível entender os aspectos deste padrão pelas descrições contidas nos textos de oferta, sendo comumente citado neles, por exemplo, que as mulheres não tinham vícios e nem achaques, que eram de muito boa conduta, de confiança, e tinham boa aparência.

 

Estas características eram sempre salientadas para a compra e venda de mulheres, mas por outro lado, os anúncios de fuga traziam aspectos que permitiam entender quais eram os desafios nesta relação de força do cotidiano. Esta segunda análise era exposta através das marcas de castigo, ou na quantidade de fugas de uma mesma escrava.

 

No interrogatório estudado, a estudante conseguiu entender qual era o contexto do porque a fuga ocorreu. A escrava narrava que gostaria de mudar de senhora, então isto já demonstrava um problema específico, e foi assim com todas as análises, segundo Amanda. O contexto real aparecia conforme os documentos eram vistos e estudados de acordo com as perspectivas da época.

 

Na finalização da pesquisa, foi demonstrada a visão de que existia um ideal de escrava doméstica no período, mas que se tinha uma resistência a este modelo também. As diferentes formas de empreender a esta luta estavam surgindo, sendo observadas até mesmo quando estas mulheres negras não se encaixavam no perfil estipulado. A introdução deste discurso que reluta contra tais concepções já demonstra o início da narrativa familiar presente nos movimentos negros atuais. Apesar da estética observada ser diferente, já se partilhava do mesmo princípio.

 

“E isto é o que dá o sentido da pesquisa, que ela tenha uma questão no presente sendo atemporal, tendo algo que ainda esteja ecoando citando alguma inquietação neste que poderia ser o princípio de um movimento que começou”, conclui Amanda.