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AGÊNCIA ALAGOAS

Governo do Estado de Alagoas
Segunda, 12 Fevereiro 2018 01:02
ÁGUA FILTRADA

Dessalinizador leva dignidade a sertanejos que bebiam água de barreiro

Situação mudou com acesso à água potável pelo sistema de dessalinização, após o fortalecimento dos programas hídricos do Governo de Alagoas

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Maria do Céu bebe água que passou por processo de dessalinização Maria do Céu bebe água que passou por processo de dessalinização Neno Canuto
Texto de Kamylla Lima

Dessalinização da água. O termo incomum para muitos foi o ponto de partida para uma nova vida no Povoado Ouricuri, em Mata Grande, no Sertão de Alagoas. O processo funciona para tornar a água apta para o consumo humano - os sais são retirados e a água é filtrada.

 


Água de boa qualidade disponível aos moradores da comunidade é uma transformação no cotidiano das pessoas que viviam a angústia de utilizar água imprópria.

 


O líquido em estado impróprio para o consumo era o único disponível no Povoado. Os moradores só passaram a ter acesso à água potável em novembro de 2017 com a implantação do sistema de dessalinização - após o término do processamento é possível beber a água de forma imediata. Antes do equipamento, os moradores da comunidade precisavam buscar água potável nos barreiros.

 


Essa mudança só foi possível após o fortalecimento dos programas hídricos promovidos pelo Governo de Alagoas. Desde 2015, mais de 200 mil pessoas foram beneficiadas pelos projetos que levam água às comunidades que enfrentavam as consequências da estiagem. Ao todo, 65 sistemas de dessalinização estão funcionando nas regiões Agreste e Sertão.

 


Maria do Céu de Souza, de 46 anos, lembrou que o líquido era de procedência duvidosa. "Era uma água que cachorro tomava banho, que cavalo bebia e, mesmo assim, a gente tinha que usar para beber e cozinhar, só tinha dela".

 

 

A distância percorrida pela agricultora era de quase meia hora de caminhada até o barreiro para encher dois baldes - um na cabeça e o outro na mão. Ela fazia quatro viagens desta por dia para abastecer a casa.

 


Para tomar banho, a agricultora buscava água em um poço cavado na década de 1990, que só fornecia água salobra. Com o objetivo de minimizar o efeito da água salgada no corpo e sem dinheiro para comprar sabonete, ela usava detergente e sabão em pó para dar banho nos filhos. Maria precisava engolir o choro diante das reclamações dos cinco filhos que ficavam incomodados com o banho de água salgada que precisavam tomar todos os dias.

 


“Quando a gente ia dar banho nas crianças, todos pequenininhos, eles choravam. Diziam: 'mãe, essa água é tão salgada'. Aí, doía, porque eu não tinha emprego, não tinha nada e a roça não rendia porque também não tinha água. Eles se queixavam do banho que era com detergente ou sabão em pó", contou Maria.

 


Ela disse que além dos produtos de limpeza, ao final do banho usava um copo de água de barreiro para que as crianças sentissem menos o efeito da água salgada. “Sabia que ia gastar a água de beber, mas não podia deixar meus filhos daquele jeito”, afirmou.

 


Daniel de Souza da Silva, de 22 anos, é filho de Maria e falou com pesar do período de falta de acesso à água na região. "Muito triste tomar banho com detergente, sem poder comprar um sabonete, desejo para ninguém. A água era ruim, mas só tinha aquela, não tinha o que fazer", relembrou.

 

 

O agricultor disse que desde a implantação do sistema de dessalinização pelo Governo do Estado ele pode dar um banho de sabonete no filho Ítalo Manoel, de oito meses.

 

“Estou feliz porque tomo banho de água doce”.

A facilidade de acesso à água desde a implantação do dessalinizador pode ser comprovada ao caminhar por Ouricuri. Na roça de Maria do Céu as plantações estão verdes. Além de milho e feijão, ela também cultiva frutas como mamão, banana e laranja - até coqueiros brotaram nas terras dela.

 

 

 


“Tem gente que veste uma roupa melhor e se orgulha, eu não. Hoje eu estou feliz porque compro um sabonete para tomar banho, estou feliz porque tomo banho de água doce e tenho água 100% boa para beber. Somos todos ricos aqui, tem onde comer, onde dormir e água pra tomar”, afirmou a agricultora.


Antes do sistema de dessalinização, a comunidade era abastecida por carro-pipa. Segundo os moradores, a água não era suficiente. Maria do Céu afirmou que a vida foi facilitada em novembro de 2017, quando foi implantado o dessalinizador no povoado.


"A vida era tão ruim que um dia precisei dividir os últimos dois litros de água de beber que eu tinha com meus cinco filhos e mais duas visitas que chegaram. Hoje olho pra minha casa e tem água de beber à vontade", comemorou a agricultora.

 

Animais preferiam água salgada

A estiagem era implacável na região. Com apenas a água salgada disponível, até os animais mudaram hábitos no Povoado Ouricuri. O acesso à água potável era escasso ao ponto de os animais preferirem a salgada, porque praticamente não tinham água doce para beber.

Eles passavam mais de 15 dias bebendo somente água salgada e quando os produtores conseguiam um pouco de água potável que chegava por carros-pipa, os animais rejeitavam.

 

 

Conscientização sobre a água

A situação mudou tanto que a professora Maria Aparecida Pereira da Silva, de 42 anos, precisa falar na escola da região sobre o uso consciente da água. Ela contou que sempre acreditou em um futuro melhor para o Povoado Ouricuri e disse que o projeto de dessalinização é o futuro que ela esperava e que está acontecendo.

 

 

O sistema de dessalinização abastece o Povoado Ouricuri - que tem mais de 120 famílias -, no entanto outras cinco comunidades de Mata Grande também podem ter acesso à água. As comunidades que usufruem da água são Pedra Miúda, União, Lagoa do Copo, Belo Horizonte e São José.